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domingo, 22 de abril de 2012
Domenico Losurdo e a História dos Intelectuais
terça-feira, 13 de março de 2012
Um íntimo devaneio com Kafka
Não é uma exclusividade minha ler Kafka e ter a sensação de que estou lendo sobre minha própria pessoa. Se um escritor conseguiu atingir esse efeito por meio de sua arte, com certeza se tornará um imortal. Atualmente, estou com a biografia romanceada Kafka e a marca do corvo, de Jeanette Rozsas e os 28 desaforismos, do próprio escritor tchéco, publicados pela Editora da Ufsc. Sim, mais que nunca, como nos ensinou Lima Barreto, o destino da literatura é irmanar as pessoas através da imensa dor que a condição humana impõe.Jeanette Rozsas capta e narra com muita sensibilidade as agruras enfrentadas pelo escritor judeu ao longo do convívio com o pai autoritário e capitalista; sua amizade com Max Brod; as reuniões com os amigos nos cafés de Praga para discutirem filosofia e literatura e as angústias amorosas enfrentandas pelo sensível e esquálido escritor. A imagem pintada por Rozsas de Kafka é a de um ser humano, como qualquer outro... terrivelmente sensível, por razões intelectuais e étnicas, em um mundo de mercadores grosseiros e preconceituoso contra as minorias. Uma sociedade, por assim dizer, pré-fascista e nazista. É esse o universo que compõe o cerne das narrativas de Kafka sobre o sofrimento humano.
Em um dos seus desaforismos, Kafka (2010, p. 27) assim lança a seguinte reflexão: "seria algo desesperador, se caminhasses numa planície, com a agradável sensação de estar a avançar, quando na verdade retrocedias. Como porém escalavas uma encosta abrupta, bastante inclinada, conforme por ti mesmo vista de baixo, a causa do retrocesso bem poderia ser devido a disposição do terreno. Não deves desesperar".

O que posso dizer é que, atualmente, na esteira das narrativas de Kafka, a gente aprende mais através da dor do que pelo amor e eu aprendi a viver um dia de cada vez, sem dúvida, sem me preocupar tanto com essa mísera moeda de favores polutivos que se tornou a palavra "liberdade".
Referências:
ROSZAS, Jeanette. Kafka e a marca do corvo. São Paulo: Geração Editorial, 2009.
KAFKA, franz. 28 desaforismos. Tradução de Silveira de Souza. Florianópolis: Editora da UFSC, 2010.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Paulo Bezerra, orgulho da Paraíba.
Em termos metodológicos, Paulo Bezerra buscou e conseguiu ser fiel ao texto em original de Dostoiévski na medida em que primou até por conservar o ritmo da fala dos personagens, as falas aparentemente desprovidas de sentido - que já foram consideradas como imperfeições narrativas - que aparecem no romance e a linguagem coloquial e acessível do escritor russo. Diferentemente do culto as belas letras presente na literatura francesa, Dostoiévski buscou, de forma consciente, romper com essas formas dominantes da literatura de seu tempo.
Em uma entrevista ao Jô Soares, Paulo Bezerra compartilhou conosco a história do caminho que trilhou para se tornar um acadêmico reconhecido nacionalmente. Paulo foi um, dentre tantos outros paraibanos (entre os quais, os próprios pais do Jô Soares), que deixaram o torrão natal em busca de melhores oportunidade em São Paulo. Se envolvendo com o movimento operário em plena ditadura militar, refugiou-se na Rússia onde aprendeu o idioma falado naquelas estepes - como conta de forma bem humorada - da melhor maneira possível através de uma namorada nativa. Ter convivido com o russo escrito e a língua falada no cotidiano pelo país fez toda a diferença para que esse homem de letras se tornasse a principal referência brasileira no tocante a compreensão de Dostoiévski.
Nos depoimentos que achei nas redes sociais, a simplicidade do professor Paulo Bezerra é sempre citada pelos seus alunos com admiração. Também é justamente essa a impressão que me ficou sobre sua conduta quando assisti sua entrevista. As falas de Paulo Bezerra transbordam um humanismo generoso, ressignificado e atual. Éis a grande lição que esse mestre nos transmite sem fazer alarde: as leituras e os estudos que realizamos nessa busca pelo significado dos dramas e alegrias que preenchem a existência humana precisam servir, pelo menos, para fundamentar uma postura ética pessoal pautada no respeito ao outro. Tantas leituras e citações de nomes de autores estrangeiros de nada servem se o sujeito não sabe cumprimentar ou oferecer um voto de cordialidade ao seu próximo. Assim, já integrando a nada pequena lista de paraibanos ilustres que figuram no rol dos grandes vultos nacionais, Paulo Bezerra, natural da cidade de Pedra Lavrada - onde passei bons momentos de minha infância - é o emblema vivo de que por essas áridas paragens existem inúmeras mentes férteis.
Referência:
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Tradução e prefácio de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2001.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
A crítica e os muitos Prousts

WILSON, Edmund. O castelo de Axel: estudo sobre a literatura imaginativa de 1870 a 1930. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Entrevista sobre Lima Barreto
Aproveito para desejar aos frequentadores desse espaço, um feliz natal e próspero 2012. Pessoalmente, eu só posso dizer que não existe alegria maior para mim do que estar de férias na Paraíba, desfrutando do calor humano e dessa rica cultura regional, que faz, sem dúvida, o Brasil cada vez mais brasileiro.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Lançamento do livro Uma outra face da Belle Époque carioca na UFCG

Local: Auditório da Biblioteca da Universidade Federal de Campina Grande
Horário: das 20:00 ás 21:30 hs.
Data: 07 de dezembro de 2011 (quarta-feira)
terça-feira, 8 de novembro de 2011
A universalidade de Macunaíma
A obra Macunaíma foi escrita em seis dias de trabalho, em dezembro de 1926 e publicada em 1928. Macunaíma logo se transformou no livro mais importante do nacionalismo modernista brasileiro. Os amigos de Mário de Andrade, ao lerem o manuscrito, tiveram a impressão fulminante de estarem segurando uma obra-prima.
Para Gilda de Mello e Sousa (1979, p. 11), Macunaíma foi escrita a partir de um método que entrecruzou uma rede de textos pré-existentes ligados as tradições orais, eruditas, populares, europeias e brasileiras.
A estética que atravessa toda a narrativa de Mário de Andrade remete a uma apropriação realizada pelo escritor da análise do fenômeno musical e do processo criador do populário. Por meio da mistura entre tendências presentes tanto na arte internacional, quanto na arte brasileira, Andrade mergulhou no universo da música e da imaginação coletiva, bem como em questões levantadas pela etnografia, folclore e psicanálise. Macunaíma, desta forma, foi escrito a partir de uma série de reflexões teóricas sobre a criação popular e a música brasileira.
Mário de Andrade publicou o livro Danças dramáticas do Brasil e o Ensaio sobre a música brasileira. Em Danças dramáticas do Brasil afirma que a música popular é um documento vivo de nossa mistura étnica. Para Andrade, a música popular do Brasil brotou da mistura de elementos rítmicos de Portugal, da África e da Espanha com as expressões musicais brasileiras. Nas palavras do próprio escritor, essa bricolagem entre o erudito e o populário encontra seu ápice na mistura entre teatro dramático, dança e música profana que ocorre na versão pernambucana do Bumba-meu-Boi.
Macunaíma é composto, portanto, da unção híbrida de peças como anedotas tradicionais da História do Brasil; incidentes curiosos presenciados pelo escritor; transcrições textuais de etnógrafos, de cronistas coloniais e frases célebres de grandes vultos da história com um processo retórico que tinha a intenção de criar “sonoridades curiosas” e “cômicas”. Portanto, para Mello e Sousa (1979, p. 22), “o exemplo mais perfeito deste processo parasitário de compor, típico do populário, seria encontrado por Mário de Andrade no improviso do cantador nordestino”.
Os cantadores de embolada e repentes compõem se valendo do seguinte método: cantam uma melodia que não é sua e que a decoram com falhas de memória. Em segundo, tecem uma série de variações subjetivas sobre o conteúdo original da melodia de modo que essa música original se torne fácil e vulgar. Por último, começam a fantasiar objetivamente sobre a melodia para variar e ampliar seus significados. Assim, os cantadores de coco e repente não são gênios iluminados do improviso, mas profissionais que se preparam longamente para a prova, armazenando na cabeça uma quantidade extensa e variada de conhecimentos, recolhidos nas fontes mais diversas: no Novo e Velho Testamento, na Arte da Gramática, em manuais de Álgebra, dicionários de Fábulas, livros de Mitologias e de Astrologia, em romances de literatura de cordel. Desse modo, a elaboração de Macunaíma encontra-se ligada à profunda experiência musical de Mário de Andrade, baseada em pesquisas sobre a circularidade entre cultura erudita e popular.
Mário de Andrade construiu uma verdadeira utopia geográfica presente em trechos como o episódio no qual Macunaíma sobrevoa o Brasil em um aeroplano e descortina, do alto, o mapa do país. Assim, esse quadro revela um desejo profundo de Mário de Andrade em buscar um denominador comum que estabelecesse um nexo entre o universo urbano do Sul/Sudeste e a cultura agrária e barroca do Norte/Nordeste.
Assim como Mário de Andrade analisou as analogias entre a música europeia e as manifestações rítmicas populares, indígenas e africanas, a obra Macunaíma possui um núcleo central firmemente europeu embora em tensão constante com o uso de expressões coloquiais, indígenas, afros e regionais que tentam emprestar a narrativa um aspecto selvagem. Ora, é inegável que Macunaíma remete também a uma retomada satírica do romance de cavalaria - a lá Dom Quixote, de Cervantes - e a tradição literária de Rabelais, na Idade Média, na qual o grotesco, a paródia e o detalhe obsceno gestavam uma visão carnavalizada do mundo, ocorrendo uma vitória simbólica do riso sobre a seriedade, o medo e o sofrimento.
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2007.
MELLO E SOUSA, Gilda de. O tupi e o alaúde: uma interpretação de Macunaíma. São Paulo: Duas Cidades, 1979.


